17/18 de maio de 2020

Frase do dia

Como será amanhã? Responda quem puder. O que irá me acontecer? O meu destino será como Deus quiser. (União da Ilha, carnaval de 1978)

Depois dos temporais

Alguns já dizem que, passado o período mais crítico da pandemia, estaremos vivendo numa situação de “o novo normal”. O quê será isso? Como será essa situação aqui no município que vive basicamente do turismo? Como disse um morador de Itacuruçá, a retomada não será, de jeito nenhum, como aquele simples colocar de uma pastilha de sonrisal num copo de água que, de pronto, se torna efervescente. No futuro próximo, já se vislumbra o cancelamento das festas juninas, que deveriam acontecer no mês que vem, a festa de São Pedro e ate mesmo a festa de Santana em fins de julho. O “novo normal” implicará numa lenta e gradual retomada até mesmo da “coragem” de visitantes virem passar feriados aproveitando nossas praias e ilhas. Apenas como ilustração, vale o registro de que o DKF, pesca de caiaque, previsto para o hoje longínquo outubro, já teve sua edição de 2020 cancelada. Provavelmente o encontro de motociclistas, de setembro, também não deve acontecer. Hora de aproveitar a quarentena para pensar no que dizia a música da cantora Marina Lima: “Pra começar, quem vai colar os tais caquinhos do velho mundo”.

Barreira em Itaguaí

Começa amanhã, em virtude de decreto do prefeito Charlinho, o controle de movimentação e acesso no município vizinho de Itaguaí. De acordo com o decreto, apenas supermercados, farmácias e padarias poderão funcionar normalmente. Não haverá restrição à entrada e saída de pessoas ou veículos, apenas controle sanitário e orientações. É falsa, portanto, a afirmativa de alguns segmentos oposicionistas de que haveria a implantação de “toque de recolher” no período noturno.

Barreira em Itaguaí

Belíndia

Há muitos anos, a cantora Elis Regina emplacou mais um de seus inúmeros sucessos cantando uma música que dizia: “O Brazil não conhece o Brasil. O Brazil nunca foi ao Brasil”. Na mesma época, o economista Edmar Bacha criou uma expressão chamando o Brasil de “Belíndia”, um país fictício, ambíguo e contraditório, que resultaria da conjunção da Bélgica com a Índia, com leis e impostos do primeiro, pequeno e rico, e com a realidade social do segundo, imenso e pobre. Segundo o autor, estávamos num país dividido entre os que moram em condições similares à Bélgica e aqueles que têm o padrão de vida da Índia. Ambas as manifestações, que já completaram cerca de cinqüenta anos, estão, nos dias atuais, claramente expostas com o advento da pandemia do covid19. De um lado, os moradores da “Brasileira-Bélgica” enfrentando a pandemia com Netflix, Ifood, alcoolgel, máscaras de grife, skype para ver a vovó, entretenimento através de artistas que fazem “lives” via internet, etc. Na outra ponta, a “Brasileira-Índia”, onde as pessoas não tem água para lavar as mãos, nem qualquer tipo de álcool, nem reservas financeiras, nem despensas recheadas. Aqueles que, ao estilo dos ancestrais, precisam sair de casa todos os dias (sem saber se irão voltar) para buscar o alimento para a família e, ainda assim, são criticados violentamente pelos moradores da “Brasileira-Bélgica” porque estariam os colocando em risco de contaminação.

Vírus politizado

Minas Gerais é o quarto estado brasileiro com a maior área territorial, o segundo em quantidade de habitantes e possui a maior quantidade de municípios. São oitocentos e cinqüenta e três os municípios mineiros. Entretanto, embora o estado possua mais de 21 milhões de habitantes e o maior número de municípios, o número de mortos por covid19 não passou, até agora, de cento e cinqüenta pessoas, sendo registrado pouco mais de quatro mil pessoas infectadas até o dia 15 de maio. Sem alarde, e sem disputas midiáticas com o governo federal, o governador mineiro Romeu Zema, com seu falar tipicamente caipira, informa que construiu um hospital de campanha para 700 leitos, que está pronto há mais de um mês ao custo de cinco milhões de reais, e está sem uso até agora por falta de pacientes.

Vírus politizado II

Enquanto isso, em  São Paulo, com quarenta e três milhões de habitantes, o número de mortes já é maior do que China, Turquia e Índia, contando 61.000 infectados e 4.600 mortes. No entanto, quando qualquer repórter questiona o governador João Dória a respeito, a resposta, qualquer que seja o assunto abordado, indefectivelmente será acusando o presidente Bolsonaro. Dá até a impressão de que se o repórter perguntar a ele se gosta de café ou chá, o governador responderá: “antes de responder, quero dizer que o presidente Bolsonaro”…”dito isso, se o presidente Bolsonaro preferir café eu, com toda certeza, preferirei o chá, e vice versa”.

Infectologistas

No futuro, todos terão seus quinze minutos de fama, afirmou certa vez o cineasta e pintor americano Andy Warhol. A lembrança vem a propósito da enorme quantidade de médicos infectologistas aparecendo diariamente nos noticiários e entrevistas. Decerto, considerando a miríade de especialidades médicas (clínica, gineco-obstetrícia, psiquiatria, cardiologia, dermatologia, urologia, pediatria, angiologia, cirurgia plástica, endocrinologia, etc) praticamente não se sabia que existiam tantos infectologistas registrados nos Conselhos de Medicina.

Na história

A difusão da peste negra na Europa, no século XIV, anos 1.300, resultou na morte de milhares de pessoas. A doença espalhou-se por cidades e pelo campo, embora tivesse ação mais mortal nos grandes centros urbanos. Locais inteiros foram devastados, e o caos disseminou-se. Algumas regiões da Europa começaram a perseguir os doentes, isolando os que adoeciam para deixá-los morrer. Em alguns casos, os doentes eram executados. O escritor italiano Giovanni Boccaccio presenciou a peste negra com seus próprios olhos e deixou relatos a respeito do que viu. Ele falou dos sintomas, do alto grau de contágio da doença, mas também abordou o desmoronamento da ordem com a disseminação da peste, pois muitas das autoridades foram contaminadas e, eventualmente, faleciam. Boccaccio também falou das diferentes reações que as pessoas tiveram no período de crise da doença. Ele relata que muitos procuraram o isolamento, evitando manter qualquer tipo de contato com pessoas, sobretudo os que estavam doentes. Aqueles que eram mais ricos e possuíam propriedades de campo, fugiram das cidades e foram abrigar-se nesses locais afastados.

Na história II

Com o tempo, os médicos perceberam que o contato com os doentes e com os corpos dos mortos não deveria acontecer. Com isso, os doentes eram isolados e o contato com eles era limitado àqueles que realizavam o tratamento médico. Padres também mantinham contato com os acometidos, principalmente porque realizavam os ritos religiosos relacionados com o perdão dos pecados e o funeral. Essa percepção de que o contato com os doentes contribuía para disseminar a doença fez com que as famílias parassem de se reunir à beira daqueles que estavam doentes. Reuniões de funerais também acabaram deixando de acontecer, e os que tratavam dos doentes passaram a utilizar roupas específicas, feitas de couro, para impedir que as secreções dos doentes penetrassem no tecido. Os médicos também passaram a utilizar uma máscara em forma de bico de pássaro, que era preenchido com ervas aromáticas. Acreditava-se que essas roupas evitavam a contaminação. Muitas autoridades começaram a impor certo isolamento para evitar a propagação da doença. O cirurgião Guy de Chauliac, de Avignon, na França, falava que pais não podiam visitar seus filhos e vice-versa em razão do alto risco de contágio. Isso tudo aconteceu há mais de setecentos anos.

Para pensar

Disse o falecido escritor João Ubaldo Ribeiro: “Se não houvesse livre-arbítrio, o homem não seria nada, não poderia aspirar a nenhuma dignidade, pois que não teria responsabilidade de que, se queremos que o mundo melhore, devemos fazer por onde ele melhore, já que o mundo é nosso, é do homem e a ele foi dado. Não se pode querer que Deus resolva os problemas do homem, porque, se o fizesse, retiraria do homem a responsabilidade e, por consequência, o livre-arbítrio.

Autor: Prof. Lauro

Psicólogo, Professor Universitário, aposentado, e escritor, 72 anos, divorciado, três filhas e seis netos. Com residência de temporada em Itacuruçá desde 1950 e definitiva a partir da aposentadoria em 2001.

Uma consideração sobre “17/18 de maio de 2020”

  1. Vírus politizado II

    O professor esqueceu de colocar quantas vezes o mão de meleca que está no palácio do planalto, criticou Minas, quantas vezes ele disse que o Zema é alvo de críticas por querer concorrer a presidência, e digo mais o Zema e o partido Novo, foram duramente criticados pelo o apoio dado ao mão de meleca. Acredito que o prof está equivocado. O Dória até agora só rebate as ofensas que lhe foram proferidas e ao estado de São Paulo. Aquela reunião com empresário que o mão de meleca pede que os mesmos se voltem contra o Dória, contra o Witzel e contra seus estados, é no minimo criminoso. Um presidente não pode ofender, muito menos pedir que alguém se volte contra um ente da federação.

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