02 de julho de 2017

Frase do dia

Sabeis quais são as flores mais lindas de um país? As virtudes de seus habitantes. (George Sand)

Crítica

Alguém notou a diferença entre os vereadores que sairam e os que hoje lá estão? Não há um que se seja opsição ao prefeito. Aprenderam em tempo recorde o caminho das viagens que geram renda. Fazem cara de paisagem ao caos na saúde e na educação, falta de materiais e falta de merenda respectivamente. (Luiz Carlos Souza, via facebook)

Leituras de domingo

Quando começou a se interessar pela história da África, o poeta, diplomata e historiador Alberto da Costa e Silva ouviu: “Por que você, um diplomata, um homem tão letrado, não vai estudar a Grécia?”. Justamente porque todo mundo estudava a Grécia ele resolveu estudar a África. Hoje, é o principal africanólogo brasileiro, autor de clássicos como A Enxada e a Lança: a África antes dos Portugueses e A Manilha e o Libambo: a África e a Escravidão, de 1500 a 1700. E, aos 84 anos, prepara um novo livro para completar sua trilogia sobre história africana. Formado em 1957 pelo Instituto Rio Branco, Costa e Silva serviu em vários países e foi embaixador na Nigéria. É membro da Academia Brasileira de Letras, autor e organizador de mais de 30 livros. Por sua obra, recebeu em 2014 o Prêmio Camões, o mais prestigiado da língua portuguesa. Filho do poeta piauiense Antônio Francisco da Costa e Silva, nasceu em São Paulo e viveu no Ceará até aos 12 anos, quando mudou-se para o Rio de Janeiro. Cresceu entre livros e costuma dizer que, como no verso do poeta francês Charles Baudelaire (1821-1867), seu berço “ao pé da biblioteca se estendia”. Foi entre livros, quadros e esculturas, no apartamento em que guarda lembranças de vários lugares do Brasil e do mundo, que ele recebeu a BBC Brasil às vésperas do Dia da Consciência Negra para falar da história do continente pelo qual se apaixonou.

Segue

Entre 1945 e 1960 seu estudo começa a ganhar grandes voos, tanto na África quanto na Europa, sobretudo Inglaterra e França. Curiosamente, o Brasil esteve ausente disso. Os historiadores brasileiros sempre viam a história das relações Brasil-África com a África figurando como fornecedora de mão de obra escrava para o Brasil, como se o africano que era trazido à força nascesse num navio negreiro. Era como se o negro surgisse no Brasil, como se fosse carente de história. Nenhum povo é carente de história. E a história da África é uma história extremamente rica e que teve grande importância na história do Brasil, da mesma maneira que a história europeia. De maneira geral, quando se estuda a história do Brasil, o negro aparece como mão de obra cativa, com certas exceções de grandes figuras, mulatos ou negros que pontuam a nossa história. O negro não aparece como o que ele realmente foi, um criador, um povoador do Brasil, um introdutor de técnicas importantes de produção agrícola e de mineração do ouro.

Segue II

Os primeiros fornos de mineração de ferro em Minas Gerais eram africanos. Fizemos uma história de escravidão que foi violentíssima, atroz, das mais violentas das Américas, uma grande ignomínia e motivo de remorso. Começamos agora a ter a noção do que devemos ao escravo como criador e civilizador do Brasil. Quando o ouro é descoberto em Minas Gerais, o governador de Minas escreve uma carta pedindo que mandassem negros da Costa da Mina, na África, porque “esses negros têm muita sorte, descobrem ouro com facilidade”. Os negros da Costa da Mina não tinham propriamente sorte: eles sabiam, tinham a tradição milenar de exploração de ouro, tanto do ouro de bateia dos rios quanto da escavação de minas e corredores subterrâneos. Boa parte da ourivesaria brasileira tem raízes africanas. Temos de estudar o continente africano não como um capítulo à parte, um gueto. A história da África está incorporada à história do mundo, porque ela foi parte e é parte da história do mundo. Que a história do negro no Brasil não seja isolada, como se o negro tivesse sido um marginal. O negro foi essencial na formação do Brasil.

Segue III

Havia um suplemento juvenil do jornal A Noite, sobre grandes nomes da história, e eu me lembro perfeitamente de um caderno sobre Zumbi. Zumbi está aliado de tal maneira à ideia de liberdade que é difícil escrever sobre ele sem ser apaixonado. Zumbi não é um nome, é um título da etnia ambundo, significa rei, chefe. Palmares era como um Estado africano recriado no Brasil. Na África era muito comum isso. Em torno de um núcleo de poder forte se aglomeravam vários povos e formavam um novo povo. Isso é uma hipótese. Tenho a impressão de que todos temos dentro de cada um de nós um africano. Podemos não ter consciência disso, mas é permanente. Há naturalmente hoje em dia uma percepção mais nítida do que é a África, a escola começa a dar uma visão mais clara. Mas ainda apresenta visões distorcidas. Uma vez uma professora veio me dizer que era absurdo que apresentássemos Cleópatra como uma moça branca, quando ela era negra. É um equívoco isso. Cleópatra não era negra nem mulata. Era grega. Os Ptolomeus, uma dinastia grega, governavam o Egito e não se misturavam.

Conclui

Existe racismo, e muitíssimo. No nosso racismo, não temos um partido racista, mas temos repetidas manifestações de racismo no seio da sociedade. É dificílimo, para um negro, ascender socialmente. A discriminação se exerce de forma muitas vezes dissimulada, mas que os marca muito. Mas está mudando. Sinto mudanças. É importante que os descendentes de africanos saibam que eles têm uma história tão bonita quanto a história da Grécia. Que eles não eram bárbaros, que não são descendentes de escravos. São descendentes de africanos que foram escravizados. Para mim o importante não é que haja cota na universidade. Acho que tem de haver cota em tudo. Se você vai se candidatar a um cargo de atendente de hotel de primeira classe, se você for negro, você tem dificuldade. O preconceito é discriminatório. Ele não impede você de usar o mesmo banheiro, o mesmo bebedouro, mas dificulta o acesso (do negro) às camadas das classes média e alta. (Entrevista à BBC Brasil)

Valongo

O Cais do Valongo, no porto do Rio de Janeiro, foi o local onde desembarcaram um milhão de pessoas escravizadas. Foram encontradas mais 500 mil objetos (búzios, ossos, pulseiras, etc), em sua maioria da tradição banto nessa localidade. Hoje, esse que é maior acervo arqueológico está em perigo, pois a prefeitura do Rio de Janeiro não pagou a empresa que faz segurança no local onde está armazenado. Defendemos que o poder público carioca e fluminense zele por acervos afro-brasileiro da mesma forma que são tratados os objetos importantes da história do Brasil. E que esse patrimônio seja exposto e pesquisado para que nossos estudantes conheçam e se interessem pelo tema da ancestralidade africana.

Realpolitk

O presidente Michel Temer foi rápido para tentar esvaziar o poder de Rodrigo Janot, atual procurador-geral da República. Recebeu a lista tríplice da ANPR (Associação Nacional do Procuradores da República) ontem mesmo e escolheu a procuradora Raquel Dodge. Com a sucessora já indicada, há em Brasília aquela velha lenda do cafezinho frio que chega à mesa das autoridades que serão substituídas. O mandato de Janot vai até 17 de setembro _ele ainda tem lenha para queimar. Temer poderia ter esperado um pouco mais, como fizeram antecessores, mas o presidente levou em conta a oposição que Raquel Dodge faz à gestão de Rodrigo Janot. É simbólica a escolha da adversária interna de Janot. Obviamente, haverá mudanças significativas no estilo e nos principais cargos da cúpula do Ministério Público Federal. No entanto, a Lava Jato deve ser preservada, porque ganhou dinâmica própria. Difícil abafar uma investigação dessa envergadura. Nos bastidores, Raquel Dodge tem críticas ao que seriam abusos e erros do Ministério Público Federal. É bom que ela corrija eventuais equívocos. A procuradora tem uma carreira com foco em direito penal e direitos humanos. Isso é bom para a Lava Jato e o Brasil. Os rumores de apoio político de caciques do PMDB e do PSDB foram uma tentativa de desgastá-la durante a campanha eleitoral na ANPR. Mas ela obteve uma votação expressiva. Nicolao Dino, o candidato de Janot, obteve 621 votos. Ela recebeu 587. Ficou em segundo lugar com uma diferença de apenas 34 votos. Isso indica respaldo da categoria. Essa decisão é mais uma derrota que Temer impõe a Janot do que a garantia de uma aliada na Procuradoria Geral da República. Com raras exceções, a história recente mostra que a indicação de ministros do Supremo e de procuradores-gerais não significa mão leve em relação aos presidentes que os apontaram. Há inúmeros exemplos hoje em Brasília. Uma vez investida do poder do cargo, a pessoa ganha enorme autonomia. É um erro apostar que Dodge será uma marionete. (Fonte: Kennedy Alencar, rádio CBN)

Anúncios

2 respostas em “02 de julho de 2017

  1. Voltando de Angra lembrei-me que na Bélgica todas (todas) as estradas são iluminadas.
    Minha esquina continua escura.
    E eu pago isso.
    Caro…

  2. Boa noite, Prof. Lauro.

    Considero também possível que Zumbi tenha sido mesmo um título, tal como Faraó no Egito, ao invés do nome pessoal do líder da resistência de Palmares.

    Sem dúvida resgatar a História da África e a leitura da nossa História do ponto de vista dos cativos (e dos afrodescendentes) contribui para a promoção da igualdade étnica e racial no país, além de ter a ver com a nossa realidade identidade. Concordo sobre o que foi colocado sobre o Cais do Valongo, o que precisa ser aplicado às ruínas do Sahy, em nossa Mangaratiba. Antes que o vandalismo e a especulação imobiliária acabem com o que restou do hediondo comércio de seres humanos aqui no nosso Município.

    Ótima semana!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s